A Memória no Feed

A Memória no Feed

Dia de jogo da seleção brasileira não começa no apito inicial.

Pelo menos não para mim.

Começa umas duas horas antes, quando a televisão ainda está naquele aquecimento dramático, os repórteres espalhados pelos arredores do estádio, torcedores pintados de verde e amarelo como se fossem convocados de última hora e comentaristas tentando adivinhar a formação com a seriedade de quem está decifrando um segredo de Estado.

Eu gosto disso.

Gosto de saber quem vai jogar.

Gosto de discordar antes mesmo da bola rolar.

— Esse técnico inventa demais.

É uma frase que todo brasileiro nasce sabendo. Alguns aprendem antes de falar “mamãe”.

Eu reparo em tudo.

No narrador tentando criar clima.

No comentarista dizendo “é um jogo perigoso”, como se existisse jogo tranquilo em Copa do Mundo.

No torcedor chorando no hino.

No outro que aparece fantasiado de taça, porque sempre existe alguém disposto a abrir mão da dignidade pela pátria.

Mas hoje minha obsessão foi outra.

No meio daquela festa toda, comecei a reparar nas pessoas que estavam no estádio, diante de um espetáculo mundial, e mesmo assim olhavam mais para a tela do celular do que para o campo.

A bola rolando.

O Brasil atacando.

O estádio vibrando.

E a pessoa lá, de costas para o jogo, tentando achar o melhor ângulo do próprio rosto.

Não era mais torcer.

Era provar que estava torcendo.

O gol quase saiu, mas ela estava ajustando o brilho.

O lance perigoso aconteceu, mas ela estava gravando o próprio grito.

O momento histórico passou bem ali, ao vivo, no verde do gramado.

Mas talvez só fosse real depois de publicado.

Fiquei pensando se a memória mudou de lugar.

Antes, a gente guardava lembranças na cabeça. Às vezes elas vinham tortas, exageradas, meio mentirosas, mas eram nossas. A gente lembrava do cheiro da pipoca, do sofá da sala, do tio gritando impedimento num lance legal, da mão suada no minuto final.

Hoje parece que muita gente só acredita que viveu alguma coisa se ela couber no feed.

E olha que eu entendo.

Registrar é bonito.

Fotografar um momento também é uma forma de carinho.

O problema é quando a pessoa troca o acontecimento pela prova do acontecimento.

Quando assiste menos para sentir e mais para mostrar.

Talvez esse seja o novo jeito de torcer: uma mão no peito, outra no celular.

A seleção em campo.

A câmera frontal ligada.

E a memória, coitada, esperando sinal de internet para existir.

No fim, continuei assistindo.

Critiquei o técnico.

Discordei da escalação.

Falei sozinho com a televisão.

Como manda a tradição.

Mas fiquei com uma certeza incômoda: tem gente que vai sair da Copa com centenas de vídeos salvos.

E talvez nenhuma lembrança inteira.


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