Dia de jogo da seleção brasileira não começa no apito inicial. Pelo menos não para mim. Começa umas duas horas antes, quando a televisão ainda está naquele aquecimento dramático, os repórteres espalhados pelos arredores do estádio, torcedores pintados de verde e amarelo como se fossem convocados de última hora e comentaristas tentando adivinhar a formação…
Você pode trocar de carro. Pode trocar de celular. Pode até mudar de time depois de uma temporada ruim. Mas experimentar outro barbeiro? Aí já é pedir demais. O barbeiro conhece seus redemoinhos, sabe onde seu cabelo insiste em crescer para cima e já percebeu que você sempre diz “só tira as pontinhas” quando, na…
Ontem, enquanto corria, a cabeça estava longe. Pensava na vida, nos planos, nas contas, nas lembranças e no que ainda nem aconteceu. Foi quando, de repente, aconteceu o mais óbvio: chutei uma pedra. Na hora soltei um riso meio sem graça. Quem corre olhando só para o horizonte esquece que o chão também merece atenção.…
Romeu estava encostado na varanda, olhando para o celular. — Ela visualizou há duas horas. Mercúcio tomou um gole de café. — Talvez esteja ocupada. — Julieta nunca demora duas horas. — Você a conhece há quanto tempo? — Três semanas. — Entendi. Romeu suspirou. — Acho que ela perdeu o interesse. Nesse exato momento,…
Fui ao sacolão comprar cheiro-verde. Enquanto escolhia os maços, uma senhora de meia-idade observou minha mão pousar sobre o coentro. Ela fez uma careta instantânea. — Nossa, eu odeio coentro. Respondi naturalmente: — Eu adoro. Foi aí que aconteceu. O rosto dela mudou. Não era mais uma conversa sobre temperos. Era como se eu tivesse…
Maria saiu do Nordestecom dois filhos pela mão,trazia a roupa do corpoe a coragem no coração. Deixou para trás a caatinga,o terreiro e o juazeiro,levou na mala a saudadee um retrato amarelado e inteiro. Chegou na grande São Paulosem parente, sem abrigo,enfrentou frio e fometendo apenas Deus consigo. Houve noite sem janta,houve lágrima escondida,mas Maria…
A praça cheirava a fritura e grama molhada. Lucas chegou primeiro, como sempre — a lata de figurinhas debaixo do braço, o tênis desamarrado, um sorriso que ele nem percebia que estava fazendo. Colocou a lata sobre o banco de madeira, abriu com um estalo familiar e ficou ali, reorganizando as figurinhas por nenhum motivo…
A buzina Eu estava caminhando até a padaria quando ouvi uma buzina. Olhei para o lado e vi uma conhecida passando de carro. Na mesma hora, abri um sorriso e balancei a mão, daqueles cumprimentos exagerados que a gente só faz quando é pego de surpresa. Ela passou reto. Nem olhou. Foi então que percebi…