A praça cheirava a fritura e grama molhada.
Lucas chegou primeiro, como sempre — a lata de figurinhas debaixo do braço, o tênis desamarrado, um sorriso que ele nem percebia que estava fazendo. Colocou a lata sobre o banco de madeira, abriu com um estalo familiar e ficou ali, reorganizando as figurinhas por nenhum motivo em especial. Só porque ele gostava do barulho.
Marina apareceu logo depois, com a mochila nas costas e uma figurinha segura entre dois dedos como se fosse um inseto raro.
— Olha o que eu consegui hoje. — Ela estendeu o cartão brilhante sem mais explicação.
Lucas pegou, virou, examinou os olhos. Assoviou baixinho.
— Você só tá faltando o goleiro agora.
Marina fez uma careta.
— Que você tem três.
— Que eu tenho três — ele confirmou, já abrindo a lata.
Pedro chegou por último, descendo a rua com os ombros um pouco curvados, como se tentasse ocupar menos espaço do que tinha direito. Ele viu os dois mexendo nas figurinhas e parou a dois passos do banco, esperando ser notado.
— Pedro. — Marina deu um tapinha no banco ao lado dela. — Senta.
Ele sentou. Abriu o caderno onde colava as figurinhas com a seriedade de alguém resolvendo um problema importante. Na página dos goleiros, havia um quadrado vazio com um ponto de interrogação desenhado à lápis.
Lucas olhou por cima do ombro.
— Você tem o craque do meio-campo? O número quarenta e dois?
Pedro virou algumas páginas sem responder de imediato. Parou numa figurinha colada com fita adesiva nas bordas — cuidado excessivo, o tipo de cuidado que diz isso aqui é importante pra mim.
— Tenho. Mas…
— Mas o quê?
Pedro fechou o caderno no joelho.
— É a minha favorita.
Silêncio. O vendedor de milho no outro lado da praça gritou alguma coisa que o vento levou embora.
Lucas coçou a nuca.
— E se eu der o goleiro e mais duas que você precisa?
Pedro abriu o caderno de novo. Olhou para a figurinha colada. Depois olhou para Marina, que já tinha entendido o que estava rolando e fingia não estar prestando atenção.
— Três figurinhas por uma — ele disse devagar, como quem testa o peso de uma decisão.
— Três por uma.
Pedro destacou a figurinha com cuidado. A fita adesiva soltou com um som quase imperceptível. Ele entregou sem olhar nos olhos de Lucas.
Lucas colocou o goleiro na mão de Marina antes mesmo de guardar o restante.
Na semana seguinte, a cidade montou um encontro de colecionadores no ginásio da escola. Havia mesas compridas cobertas de figurinhas, o cheiro de papel novo misturado com o bafo quente de muita gente no mesmo lugar, e o barulho constante de pacotinhos sendo abertos.
Pedro ficou parado perto de uma das mesas do fundo.
Na frente dele, um menino mais novo — oito, nove anos talvez — segurava uma figurinha com as duas mãos. Era exatamente a que Pedro procurava há três semanas: o lateral direito da seleção, número sete, bota vermelha, olhar de lado. Pedro reconheceu pelo reflexo dourado no canto do cartão.
O menino percebeu o olhar de Pedro e recuou um passo.
Pedro não avançou.
Ficou onde estava. Abriu a mochila devagar, tirou o caderno, folheou até encontrar o que precisava. Eram cinco figurinhas repetidas — boas, não lixo — que ele tinha separado especificamente para trocas. Colocou tudo sobre a mesa entre eles dois.
— Pode escolher três — disse Pedro. — Pelo número sete.
O menino olhou as figurinhas. Depois olhou Pedro. Depois as figurinhas de novo.
— Você não vai me enganar?
— Não.
O menino pegou três. Empurrou o lateral direito em direção a Pedro com a ponta do dedo.
Pedro guardou no caderno. Não colou ali — ia esperar chegar em casa, com a fita adesiva certa, fazer direito.
Quando se virou, Lucas e Marina estavam parados atrás dele. Lucas com a lata debaixo do braço. Marina com uma figurinha na mão que ela estava claramente esquecendo de trocar.
Nenhum dos três disse nada por um momento.
Depois Marina enfiou a figurinha no bolso e falou:
— Você quer um milho?
— Quero — disse Pedro.
E os três atravessaram o ginásio juntos, com o barulho de pacotinhos e trocas e crianças gritando em volta, e nenhum deles achou necessário comentar sobre o que tinha acabado de acontecer.
Às vezes as coisas mais importantes não precisam de palavras para existir.
Fim.


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